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Capítulo 1 - A Criação

O início está ligado à realização das “1as Jornadas de Ciência e Tecnologia” para as quais, e a pedido da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT, a antecessora da Fundação para a Ciência e Tecnologia), foi preparado o “Plano Nacional para o Desenvolvimento da Astronomia”.
Estávamos em 1986, e a investigação científica era, na generalidade das áreas, ainda um investimento tímido em termos de recursos humanos, infraestruturas e projetos. José Mariano Gago, então chegado à presidência da JNICT, decide organizar as “Jornadas” com vista à apresentação pública e discussão da Ciência e Tecnologia, envolvendo praticamente todos os domínios, numa iniciativa que constituiu uma viragem marcante da situação da investigação em Portugal.
Em particular para a Astronomia/Astrofísica essa foi também uma oportunidade decisiva. A proposta que então apresentei, elaborada após a realização de um levantamento exaustivo dos recursos disponíveis nas instituições nacionais de Astronomia e áreas afins, propunha a criação de um Instituto Nacional de Astronomia, com três pólos autónomos e sede no Porto. Ela incluía um plano global e detalhado de desenvolvimento a cinco anos em termos de infraestruturas, de projetos, de recursos humanos e formação, de investigação e mesmo de parcerias internacionais1. E envolvera negociações minuciosas entre os potenciais pólos. Porém, esta proposta estava claramente adiantada no tempo relativamente às práticas e ambições, ainda tradicionais. Sem condições de concretizar as parcerias propostas, veio, indiretamente, a realizar-se na criação do Centro de Investigação em Astronomia e Astrofísica, mas apenas na Universidade do Porto (1987)2.
A decisão foi do presidente da JNICT. Mas para a sua concretização foi fundamental a abertura e visão de Alberto Amaral, então Reitor da UP.

A “invenção” de uma organização que fosse flexível, eficiente, ambiciosa e internacionalmente competitiva não foi tarefa fácil numa altura em que não existiam ainda “modelos” de instituições de investigação como hoje conhecemos, para além dos laboratórios de estado, de grande dimensão e excessiva rigidez. Houve que desenhar a instituição e os seus objetivos que teriam naturalmente que ser ambiciosos para ter sentido, envolvendo não só investigação internacionalmente competitiva, mas também a formação de investigadores até aí inexistente, a formação de astrónomos a diversos níveis, e a aposta na partilha do conhecimento com o público alargado - das escolas primárias ao público em geral3.
Assim não surpreenderá que quase dois anos fossem necessários até que, a 4 de maio de 1989, fosse concretizada a escritura notarial do CAUP como associação científica e técnica privada, sem fins lucrativos, tendo como Associados Fundadores a Universidade do Porto e a Fundação Gomes Teixeira, e inscrevendo entre os seus objetivos estatutários: apoiar e promover a Astronomia, através da investigação científica, da formação ao nível pós-graduado e universitário, do ensino ao nível não universitário e da divulgação da ciência promovendo a cultura científica.

A criação do CAUP foi assim uma aventura não trivial, mas entusiasmante, única, apenas possível por uma conjugação feliz de responsáveis de grande qualidade e visão, quer na gestão nacional da ciência em Portugal quer na Universidade do Porto.

Naturalmente que a criação não concluiu a “tarefa”. Seguiram-se outras fases igualmente exigentes em criatividade e determinação - conseguir instalações provisórias, obter as primeiras bolsas de doutoramento, concretizar as primeiras bolsas de projetos e investigação, a criação do edifício partilhado Planetário do Porto/CAUP e da própria Fundação para a Ciência e Desenvolvimento sua proprietária. Ao mesmo tempo que se ia construindo de base uma prática de investigação e uma equipa por recrutamento internacional. Mas estas são “cenas dos próximos capítulos”.

Teresa Lago
Porto, 3 de maio de 2011

Notas
1 Surge aí a primeira referência à importância de adesão ao ESO.
2 De certo modo foi pena - o modelo de instituto nacional numa área científica era então plenamente oportuno; hoje está claramente ultrapassado pela necessidade de instituições de caráter transversal.
3 É óbvio que a investigação suportada por fundos públicos tem o dever de retribuição ao público, partilhando o conhecimento adquirido. Mais de 20 anos passados, os centros de comunicação de ciência são hoje omnipresentes, integrados em centros de investigação ou no Ciência Viva. Na época eram um sonho individual de poucos.